A Noite em que a Paciência Acabou
A noite de domingo terminou com o amargor de sempre, mais uma derrota para a conta, desta vez por 1 a 0 para o Vitória. Mas algo foi diferente. No lugar do silêncio ou das desculpas protocolares, a sala de imprensa tremeu. Franclim Carvalho, o nosso comandante, deixou a pressão pelo cargo de lado e apontou a sua fúria para um alvo claro: a arbitragem de Paulo Cesar Zanovelli. A palavra usada pelo mister define o sentimento de cada botafoguense: “Escândalo”.
Depois de uma semana assombrada pelo pesadelo em Cusco contra o Cienciano, o torcedor alvinegro esperava uma resposta. O que vimos foi um time lutando contra os próprios demônios e, segundo nosso técnico, contra um inimigo externo que vestia um apito. A derrota dói, mas a sensação de injustiça queima na alma.
O Lance Capital: Um Escândalo aos 44 Minutos
O epicentro do terremoto verbal de Franclim tem nome, sobrenome e minuto para acontecer. Aos 44 do primeiro tempo, Danilo avançava quando foi ceifado por Ramon, do Vitória. Uma falta dura, clara, para vermelho direto na visão de qualquer um que entende o mínimo de futebol. Mas o árbitro, Paulo Cesar Zanovelli, mostrou apenas o amarelo.
O que mais revolta é a omissão do VAR. “É impossível o senhor Daniel Nobre, do VAR, não expulsar o Ramon no lance do Danilo”, desabafou Franclim, incrédulo. “Eu não sei o que é preciso fazer para expulsar naquele lance. Não sei. E o VAR estava funcionando, porque deram impedimento no lance a seguir ao 1 a 0. Bem ajuizado”.
A lógica do treinador é a nossa. Como a tecnologia que funciona para um lance de impedimento se torna cega para uma agressão? “O lance do Danilo é um escândalo para mim”, cravou, com a voz carregada de indignação. Ele até aceita o erro de campo do árbitro e dos assistentes Guilherme Dias e Anderson Ribeiro, mas a falha do VAR é imperdoável. Mudaríamos o jogo? Não sabemos. Mas jogar todo o segundo tempo com um a mais seria outra história. A história que nos foi roubada.
Um Jogo Condicionado Pelo Apito
O drama com a arbitragem não se resumiu ao lance de Danilo. A perseguição começou cedo. Logo no primeiro minuto de jogo, o jovem Huguinho, nossa cria, recebeu um cartão amarelo que, segundo relatos que chegaram ao técnico, foi inexistente. “Eu ainda não vi o lance do amarelo do Huguinho, já me disseram que não era para amarelo. Obviamente condicionou o Huguinho”, explicou o mister.
Esse cartão precoce foi o estopim para uma decisão drástica: sacar o volante ainda no primeiro tempo para a entrada de Junior Santos. Uma substituição forçada, que desmontou o planejamento inicial. Ironicamente, Franclim não fugiu da raia ao analisar o pênalti cometido pelo próprio Huguinho mais tarde: “Já vi o pênalti do Huguinho, para mim foi pênalti”. Honestidade de um lado, revolta do outro. A coerência que faltou ao homem do apito e ao da cabine de vídeo.
O Fantasma de Cusco e a Seca de Gols
Franclim não se escondeu. Ele sabe que a ferida da goleada para o Cienciano ainda está aberta e sangra. “Sabemos que foi um dia muito difícil para nós, botafoguenses. Não era a imagem que a gente queria deixar”, admitiu, reconhecendo o peso do resultado na confiança do elenco. “Após o resultado de quinta-feira, o lado emocional não está igual ao que estava na quarta-feira. É normal, porque somos humanos”.
Essa fragilidade emocional talvez explique a principal doença do Glorioso nos últimos jogos: a falta de pontaria. “É preciso fazer gol. Era o que nós antes fazíamos sempre, muitos gols. E agora não fizemos”, lamentou. Contra o Vitória, tivemos chances. Uma cabeçada de Cabral, outra de Júnior defendida pelo goleiro. Mas a bola não entra. Enquanto o adversário teve duas chances claras, incluindo o pênalti, e marcou, nós ficamos no quase.
O técnico ainda detalhou as tentativas de mudar o time taticamente, chamando Domingos para ser um “5 mais fixo” e depois, já em desvantagem, tornando a equipe mais ofensiva com Danilo de segundo volante e Medina como primeiro. Tudo em vão. A bola teimou em não beijar as redes.
E Agora, Glorioso?
A derrota é um fato, a crise é real e a pressão sobre Franclim Carvalho é imensa, mesmo que ele a coloque em segundo plano. Mas sua explosão na coletiva, sua defesa intransigente do Botafogo contra o que ele chamou de “escândalo”, ecoa o grito preso na garganta de milhões de torcedores.
Não queremos um técnico que se esconda. Queremos um líder que lute por nossa Estrela Solitária dentro e fora de campo. A atitude de Franclim foi a de um comandante que se recusa a ver seu exército ser abatido por fogo inimigo sem reagir. O resultado em campo foi desastroso, mas a batalha nos microfones foi vencida. Que essa fúria se transforme em combustível para voltarmos a ser o Fogão que bota medo, o time que faz gols e que vence, apesar de tudo e de todos.
Informações com base em reportagem do ge.globo.com.