Um Soco na Alma Alvinegra
Há noites em que a Estrela Solitária parece se apagar. Noites em que o peso da camisa gloriosa se torna um fardo insuportável. A noite desta quinta-feira (13), em Cusco, no Peru, foi uma dessas. Um soco no estômago, um nó na garganta, uma humilhação que ecoará por muito tempo em General Severiano. O placar de 6 a 1 para o Cienciano na Copa Sul-Americana não é apenas um resultado elástico; é uma ferida aberta na alma do povo do Fogão.
E, ao final do massacre, o homem no comando do barco, o técnico Franclim Carvalho, não buscou subterfúgios. Em suas palavras, o eco do sentimento de cada um de nós, torcedores: a vergonha. Ele assumiu a responsabilidade, tentou explicar o inexplicável e deu a dimensão exata do desastre que se abateu sobre o Alvinegro na altitude peruana.
As Escolhas que Levaram ao Caos
Todo botafoguense que assistiu ao jogo se perguntou: o que aconteceu? Por que um time que carrega a nossa estrela no peito pareceu tão frágil, tão exposto? O próprio Franclim Carvalho, na coletiva de imprensa, tentou lançar luz sobre o plano que, na prática, se transformou em um pesadelo. As mudanças no time titular foram uma aposta para conter a principal arma do adversário.
“Nós trocamos os laterais por causa do tipo de jogo do adversário, que é de muita bola na área”, explicou o comandante. Saíram Telles e Vitinho, entraram Marçal e Ponte. Uma tentativa de fortalecer a defesa pelo alto que se provou desastrosa. O meio-campo, com Danilo e Montoro, também foi reformatado. A ideia, segundo o técnico, era que “sem bola eram jogadores de espaço interior”, com Danilo recuando para se juntar aos zagueiros. A teoria, porém, ruiu diante da avalanche peruana.
Desde o primeiro minuto, o que se viu foi um Glorioso sufocado, incapaz de respirar ou de impor seu jogo. As alterações, pensadas para dar segurança, acabaram por desfigurar a equipe, deixando espaços que o Cienciano soube explorar com uma voracidade mortal. A estratégia falhou. E falhou feio.
‘UM DIA QUE NOS ENVERGONHA’: O Desabafo do Comandante
Não há como dourar a pílula. Franclim Carvalho usou as palavras que doem, mas que precisavam ser ditas. “Não estou aqui a dar recados a ninguém, mas é um dia difícil para todos nós, que nos dá vergonha”, confessou o treinador, com a voz carregada pelo peso da derrota acachapante.
Ele fez questão de detalhar o colapso, gol a gol, como quem revive uma tortura. “Sabíamos da dificuldade de jogar aqui, estávamos avisados do adversário, das bolas na área, falamos sobre isso, tentamos evitar, não conseguimos”, lamentou. A crônica da tragédia anunciada. O primeiro gol, o segundo que “o VAR demora a analisar”, o terceiro… e o quarto, que ele admitiu ser de “mérito deles”.
A análise do segundo tempo não foi menos dolorosa. O Botafogo até esboçou uma reação, marcou seu gol de honra, mas a desorganização era total. “No segundo tempo voltamos diferentes, fizemos nosso gol, e sofremos o quinto gol em que estamos completamente disposicionados porque o Ferraresi vai tentar ganhar a primeira bola”. O sexto e último prego no caixão veio no desespero. “No sexto gol, estávamos tentando fazer outro gol”. Foi o retrato de um time que perdeu o rumo, a tática e, por fim, a dignidade em campo.
Altitude, Velocidade da Bola e a Missão Impossível
Franclim ainda mencionou as condições adversas, um fator real, mas que soa pequeno diante da magnitude do placar. “A velocidade da bola aqui é completamente diferente”, pontuou, antes de concluir com a resignação de quem sabe que não há o que justifique o ocorrido: “mas não adianta falar nada aqui agora. É um dia que nos envergonha”.
Agora, a conta chegou. E ela é astronômica. Na próxima quinta-feira, dia 20, o Nilton Santos precisará se transformar em um caldeirão de fé e fúria. Para avançar às quartas de final, o Fogão terá de protagonizar uma das maiores viradas de sua história: vencer por seis gols de diferença. Uma missão que beira o impossível, mas o futebol e a mística alvinegra já nos ensinaram a nunca dizer nunca.
Antes disso, porém, há uma ferida para lamber e um campeonato para lutar. No domingo (16), o compromisso é contra o Vitória, pela 24ª rodada do Brasileirão. Será o momento de ver se este grupo tem forças para se reerguer do pó, para mostrar que a vergonha de Cusco pode se transformar em combustível para uma reação. A torcida, mesmo ferida, estará lá. Porque ser botafoguense é isso. É sofrer com paixão e acreditar até quando a razão diz para desistir. A Estrela Solitária está manchada, mas é nosso dever, como fiéis da Estrela, ajudá-la a brilhar novamente.
Informações com base em reportagem do www.lance.com.br.