A noite de quinta-feira não será esquecida. Não pode ser. Em Cusco, na altitude que sabíamos ser traiçoeira, o Botafogo não foi apenas derrotado. Foi humilhado, desfigurado, pisoteado. O placar de 6 a 1 para o Cienciano não é só um número; é uma cicatriz na alma de cada torcedor que veste preto e branco. E no meio do caos, uma voz se levantou para assumir a responsabilidade. Franclim Carvalho, nosso comandante, deu a cara a tapa e usou a palavra que ecoa em nossas mentes: vergonha.
Em uma coletiva de imprensa dolorosa, o técnico não buscou desculpas vazias. Ele encarou os microfones e traduziu o sentimento de um povo inteiro. “É um dia difícil para todos nós, que nos dá vergonha”, admitiu Franclim. A frase, curta e direta, carrega o peso de uma das noites mais sombrias da nossa história recente. Não há como dourar a pílula. A Estrela Solitária se apagou no Peru, e agora, cabe a nós entender o porquê.
As trocas que não funcionaram: A tática por trás do desastre
Muitos de nós, do sofá de casa, questionamos as escolhas iniciais. Por que mexer no time? Franclim tentou esclarecer o raciocínio. Segundo ele, a estratégia era combater a principal arma do adversário: a bola aérea incessante. “Nós trocamos os laterais por causa do tipo de jogo do adversário, que é de muita bola na área”, explicou.
A ideia, no papel, talvez fizesse sentido. Mas o futebol, essa ciência tantas vezes inexata, destruiu a teoria em campo. A escalação de Danilo e Montoro também tinha um propósito específico. “Com a bola eram jogadores de espaço interior. Sem bola, o Danilo ficava entre os zagueiros”, detalhou o mister. A tentativa era criar uma estrutura defensiva mais robusta e, ao mesmo tempo, ter escape. O que se viu, no entanto, foi um time perdido, desconexo e incapaz de reagir à avalanche do Cienciano.
A cronologia da humilhação, gol a gol
O técnico português fez questão de dissecar o pesadelo. Ele narrou como o castelo de cartas alvinegro desmoronou, lance a lance. Estávamos avisados, ele mesmo confessou. “Sabíamos da dificuldade de jogar aqui, estávamos avisados do adversário, das bolas na área, falamos sobre isso, tentamos evitar, não conseguimos”.
O primeiro gol veio, e com ele a porteira se abriu. O segundo, segundo Franclim, foi marcado por uma longa e angustiante análise do VAR, que só serviu para prolongar nosso sofrimento. “Depois faz o terceiro, o quarto é de mérito deles”, reconheceu, sem tirar a responsabilidade de seus comandados e de si mesmo. A velocidade da bola na altitude, “completamente diferente”, foi citada, mas não como muleta. Apenas como um fato.
Houve um breve lampejo de esperança no segundo tempo, quando marcamos nosso gol de honra. Uma honra que durou pouco. “No segundo tempo, voltamos diferentes, fizemos nosso gol e sofremos o quinto gol em que estamos completamente disposicionados porque o Ferraresi vai tentar ganhar a primeira bola”, analisou o técnico, apontando a falha de posicionamento que selou o caixão. O sexto gol? Foi a consequência de um time já entregue, buscando um milagre e abrindo espaços fatais. Nas palavras do zagueiro Ferraresi, foram “45 minutos de nada”. Uma definição perfeita para o horror.
Uma ferida que remete a um passado sombrio
Para o torcedor mais jovem, essa pode ter sido a pior goleada já vista. Mas os mais experientes sabem que essa dor não é inédita, o que a torna ainda mais amarga. Fazia exatos 16 anos que o Botafogo não sofria seis gols numa mesma partida. A última vez foi em 2010, em um fatídico 6 a 0 para o Vasco, justamente na estreia de um ídolo, Loco Abreu.
Aquela derrota marcou uma geração. Esta, em Cusco, corre o risco de fazer o mesmo. É um resultado que entra para os anais da vergonha do Glorioso, um capítulo que gostaríamos de arrancar dos livros de história, mas que agora está gravado a ferro e fogo. A altitude não explica tudo. A falta de alma, a apatia e os erros em cascata são os verdadeiros vilões.
O adversário não era surpresa
Franclim fez questão de rechaçar qualquer ideia de que o Cienciano foi uma surpresa. Ele estudou o oponente e sabia do que eles eram capazes, especialmente em seus domínios. O técnico lembrou da eliminatória anterior, quando os peruanos reverteram um 2 a 0 contra o Lanús com um impiedoso 4 a 0 em Cusco. “O resultado da eliminatória anterior só surpreendeu quem não viu o jogo. Eu vi o jogo, não me surpreendeu nada. Portanto, nós estávamos de sobreaviso”, cravou.
Saber do perigo e não conseguir neutralizá-lo é, talvez, o aspecto mais frustrante de toda a situação. O Cienciano, segundo o nosso treinador, “tem uma identidade, uma ideia bem definida. Mete muita gente na área, muito cruzamento”. Eles jogaram o jogo deles. E nós? Onde estava o Botafogo? Onde estava a garra que deveria honrar essa camisa?
E agora, Fogão?
A delegação sequer volta para casa. O roteiro da penitência continua com uma viagem direta do Peru para Salvador, onde enfrentamos o Vitória no domingo, pelo Brasileirão. Como juntar os cacos? Como reerguer a moral de um elenco destroçado para uma partida crucial do campeonato nacional?
E na próxima quinta-feira, o palco do reencontro: o Nilton Santos. Teremos que reverter uma desvantagem de cinco gols. É uma missão que beira o impossível, mas o futebol já nos ensinou a não duvidar. “A nossa situação neste momento é muito difícil”, concluiu Franclim. Difícil é eufemismo. É uma montanha mais alta que os Andes para escalar. Mas se há algo que define o botafoguense é a fé teimosa. Mesmo na vergonha, na dor e na humilhação, a chama da Estrela Solitária, por mais fraca que pareça, ainda pisca. Resta saber se os jogadores em campo sentirão o mesmo.