O DIA EM QUE A ESTRELA SOLITÁRIA BRILHOU MAIS FORTE EM SÃO PAULO
Existem noites que não se apagam. Noites em que o Botafogo, contra tudo e contra todos, veste seu manto mais glorioso e mostra ao Brasil por que nossa estrela é, de fato, solitária. Voltemos no tempo, para uma quinta-feira fria em São Paulo, dia 30 de junho de 2011. O palco: um Morumbi que se preparava para uma festa. O adversário: o São Paulo de Paulo César Carpegiani, então um dos favoritos ao título do Brasileirão.
Eles tinham a torcida, o favoritismo da imprensa, a arrogância de quem joga em casa. Mas eles não tinham a mística alvinegra. Do outro lado do campo, um exército silencioso e letal, comandado pelo saudoso Caio Júnior, estava pronto para transformar a festa tricolor em um velório. Aquela não seria uma noite qualquer. Seria a noite de São Paulo 0 x 2 Botafogo.
Para o povo do Fogão, é uma daquelas memórias que aquecem a alma. Uma aula de como ser um visitante indigesto, uma lição de tática, raça e eficiência cirúrgica. Vamos juntos, botafoguenses, relembrar cada detalhe dessa vitória monumental.
A MURALHA DE CAIO JÚNIOR E O DESESPERO TRICOLOR
O apito inicial soou, e o roteiro parecia ser o que todos esperavam. O São Paulo, com jovens talentos como Casemiro e Willian José, além da velocidade de Marlos e Fernandinho, partiu para cima. A ordem de Carpegiani era clara: asfixiar o Glorioso, pressionar, encontrar um gol cedo e resolver a partida.
Mas o Botafogo é isso aí. Resiliência. Inteligência. Nosso time demonstrou uma maturidade tática que deixou os paulistas de queixo caído. A dupla de zaga formada por Antônio Carlos e Fábio Ferreira era simplesmente intransponível. Pelo alto, por baixo, eles ganhavam todas, dando uma tranquilidade absurda para o goleiro Renan, que substituía à altura nosso ídolo Jefferson.
Enquanto a defesa era uma fortaleza, nosso meio-campo era uma zona de guerra controlada. A pegada de Lucas Zen e a onipresença de Somália começaram a anular o time da casa. O São Paulo de Rogério Ceni rodava a bola, mas esbarrava em um paredão. A bola não chegava. O perigo não existia. E das arquibancadas, o que era apoio começou a se transformar em impaciência. O Glorioso sentiu o cheiro de sangue.
O GOLPE DE MESTRE: ELKESON FAZ O MORUMBI EMUDECER
O futebol pune a soberba e premia a inteligência. E o Botafogo de 2011 era pura inteligência. Enquanto o São Paulo se frustrava, nosso time esperava o momento certo para o bote. E ele veio, com a assinatura de um craque que vivia uma fase iluminada.
Corria o minuto 35 da primeira etapa. Em uma transição rápida, mortal, como uma lança perfurando a defesa adversária, a bola foi trabalhada com a precisão de um relógio suíço. Ela encontrou quem sabia o que fazer com ela: Elkeson. Nosso camisa 10, com um posicionamento de gênio e uma categoria ímpar, finalizou da entrada da área. Rogério Ceni, o goleiro-artilheiro, só pôde olhar. A bola estufou a rede.
1 a 0 para o Botafogo. O Morumbi se calou. O grito que se ouvia era o de um punhado de fiéis da Estrela, que viam a história ser escrita diante de seus olhos. Foi um balde de água fria, um soco no queixo do favorito. O São Paulo, com sua posse de bola inútil, estava perdido em campo, sem saber como furar o bloqueio imposto por Caio Júnior.
O TANGO DA VITÓRIA: HERRERA, O CARRASCO IMPLACÁVEL
Se o São Paulo achou que o intervalo mudaria alguma coisa, se enganou redondamente. A segunda etapa mal havia começado e o destino da partida seria selado. A pressão e a agressividade dos donos da casa se transformaram em desespero e erro.
Aos 6 minutos do segundo tempo, a defesa tricolor se atrapalhou. Pênalti para o Botafogo! A chance de matar o jogo, de cravar a lança no coração do adversário. E quem foi para a bola? Ele. O argentino de raça inabalável, o homem que não conhecia o significado da palavra ‘pressão’: Germán Herrera.
Com a frieza de um matador, Herrera ajeitou a bola na marca da cal. Do outro lado, o ídolo deles, Rogério Ceni. Mas naquela noite, a estrela que brilhava era a nossa. Herrera partiu, bateu com convicção e decretou: São Paulo 0, Botafogo 2. O golpe final. O tango da vitória em pleno Morumbi.
O resto do jogo foi um desfile de controle e maturidade do Alvinegro de General Severiano. O São Paulo, com jogadores como Ilsinho e Juan, tentava em vão, mas já estava nocauteado. A vitória estava construída, e era uma vitória com a cara do Botafogo: sofrida, inteligente, tática e, no final, absolutamente Gloriosa.
UM LEGADO DE GLÓRIA E MÍSTICA
Aquela vitória em 30 de junho de 2011 foi muito mais do que três pontos. Foi a afirmação de um time que sabia sofrer e sabia ser letal. Um time moldado por Caio Júnior para ser o pesadelo dos mandantes. Com a genialidade de Maicosuel, a classe de Elkeson e a raça de Herrera, aquele Botafogo nos deu noites inesquecíveis.
Relembrar São Paulo 0 x 2 Botafogo é reviver a essência do que é ser botafoguense. É entender que, mesmo quando somos os azarões, nossa camisa pesa, nossa história impõe respeito e nossa Estrela Solitária pode, a qualquer momento, brilhar mais forte do que qualquer constelação. Uma noite para sempre na memória do povo do Fogão.
Informações com base em reportagem do www.lance.com.br.