Um nome que ecoa em General Severiano, uma estreia que abala a Europa. Davide Ancelotti, que um dia caminhou pelos corredores do nosso Glorioso, mostrou ao mundo que o talento, por vezes, só precisa da oportunidade certa para florescer. Em sua estreia no comando do Lille, na França, ele não apenas venceu, mas o fez com autoridade, em meio a um furacão de 100 milhões de euros. Uma noite que deixa o torcedor alvinegro com um misto de orgulho e uma pontinha daquela melancolia que só nós, fiéis da Estrela Solitária, conhecemos bem.
A bola rolou no Estádio Raymond Kopa para a abertura da Ligue 1, e o Lille, sob o comando do nosso ex-auxiliar, bateu o Angers por 2 a 0. Um placar construído com a frieza dos grandes, todo ele na primeira etapa, mostrando que o trabalho de Ancelotti já tem cara, corpo e alma. Mas o jogo em si foi apenas o ato final de um dia que começou com uma bomba nos bastidores, uma daquelas notícias que redefinem o patamar de um clube.
Bastidores em chamas: 100 milhões de euros e um novo começo
Antes mesmo do apito inicial, o mundo do futebol foi sacudido. A imprensa francesa cravou: acordo de princípio fechado entre Lille e o gigante Manchester City pela venda do jovem marroquino Ayyoub Bouaddi. Os valores? Estratosféricos. Uma operação que pode chegar à marca de 100 milhões de euros, somando valores fixos e variáveis. É o tipo de dinheiro que muda a história, que constrói dinastias. E foi por isso que o meio-campista sequer foi relacionado para a partida. Uma decisão difícil, mas que mostra a dimensão do que estava em jogo.
O caos poderia ter se instalado. Perder uma peça-chave horas antes de uma estreia já é um teste de fogo para qualquer comandante. Para aumentar o drama, outra ausência sentida era a do atacante belga Matías Fernández-Pardo. Embora seu nome seja ventilado em uma negociação com o RB Leipzig, sua ausência contra o Angers se deu por uma suspensão que ele trazia da temporada passada. Duas baixas importantes, um cenário de pressão. Era o palco perfeito para o fracasso. Mas não para Davide Ancelotti.
A resposta de um General: DNA de campeão em campo
Como o Glorioso responde às adversidades? Com luta, com a mística alvinegra. E parece que Ancelotti aprendeu algo em sua passagem pelo Rio de Janeiro. A resposta do Lille foi imediata, avassaladora. Em campo, a ausência de Fernández-Pardo foi suprida por um nome que dispensa apresentações: o veterano Olivier Giroud. E o campeão do mundo precisou de apenas dez minutos para mostrar a que veio.
Como um predador na área, Giroud recebeu um passe magistral de Nabil Bentaleb, girou sobre a marcação com a tranquilidade de quem sabe o que faz e fuzilou para as redes. O gol. A explosão. E na comemoração, uma cena que diz tudo: um abraço forte, efusivo, direto no novo treinador. Era o recado do elenco. Estamos com você, comandante. A mística, por vezes, muda de endereço.
O time não se acomodou. Aos 30 minutos do primeiro tempo, a pá de cal. Em mais uma jogada trabalhada, o lateral-direito Tiago Santos tabelou com Hákon Haraldsson e, após outra assistência de Bentaleb, o segundo homem a brilhar na noite, deu números finais ao confronto. Um 2 a 0 construído na bola, na tática e na alma. O segundo tempo foi mera formalidade, com o Angers assistindo, impotente, à primeira demonstração de força do Lille de Davide Ancelotti.
E o Botafogo com isso? A lição que fica para o Fogão
Enquanto celebramos, ainda que à distância, o sucesso de alguém que vestiu nossas cores, uma reflexão se impõe. Davide Ancelotti esteve aqui. Era parte de um projeto. Quantos de nós o vimos apenas como ‘o filho de Carlo Ancelotti’? Quantos deram o devido valor ao seu trabalho, à sua visão de futebol? A verdade, talvez amarga, é que o futebol brasileiro, e por vezes até o nosso amado Botafogo, tem dificuldades em reconhecer e reter talentos que não estão sob os holofotes principais.
Ver sua estreia com personalidade, gerenciando uma crise milionária e colocando em campo um time organizado e letal, nos faz pensar. Deixamos escapar uma mente brilhante? Ou ele simplesmente não estava pronto na época? São perguntas que ficam no ar, pairando sobre General Severiano como uma névoa de ‘e se…’.
O sucesso de Ancelotti na França é um lembrete poderoso. Um lembrete de que a Estrela Solitária não apenas ilumina nosso caminho, mas também toca a todos que passam por ela. Desejamos toda a sorte do mundo a Davide em sua jornada. Que ele construa um legado tão grande quanto o nome que carrega. E que nós, o povo do Fogão, aprendamos a olhar com mais atenção para os talentos que nos cercam. Antes que seja tarde demais e tenhamos que admirá-los brilhando em outro céu.
Informações com base em reportagem do www.lance.com.br.