A Dor e a Esperança: Quando o Fim é Apenas o Começo
A alma botafoguense sangra. O placar de 6 a 1 sofrido para o Cienciano, lá no Peru, pesa como uma bigorna em nosso peito. A missão para seguir vivo na CONMEBOL Sul-Americana parece hercúlea, quase um delírio: precisamos de uma vitória por seis gols de diferença no Nilton Santos. Em noites como esta, quando a lógica nos abandona, a única coisa que nos resta é a fé e a memória. E a memória, meus amigos, nos traz uma lição poderosa diretamente de 2010, pelas palavras do inesquecível ‘Papai Joel’ Santana.
A história, com sua teimosia poética, parece se repetir. Uma goleada humilhante, a demissão de um técnico — antes Estevam Soares, agora Franclim Carvalho — e um sentimento de terra arrasada. Mas foi justamente desse chão de cinzas que o Glorioso renasceu para uma de suas conquistas mais saborosas. E quem nos guia por essa lembrança é o próprio Joel.
A Sombra de 2010: O Vexame Contra o Vasco e a Chegada do ‘Papai’
Voltemos no tempo. Terceira rodada da Taça Guanabara de 2010. O palco era o nosso Nilton Santos, e o adversário, o Vasco. O resultado: um 6 a 0 que ecoou como um trovão em General Severiano. A ferida foi profunda, a humilhação, pública. A diretoria agiu rápido e o técnico Estevam Soares foi dispensado. O cenário era de caos.
Foi então que ele chegou. Joel Santana, com sua prancheta e seu jeito único, assumiu um time em frangalhos. Em entrevista exclusiva à ESPN, ele relembrou aquele momento com a sinceridade que lhe é característica. “Eu cheguei no Botafogo, não conhecia o Loco Abreu e nem o Herrera. Os três adversários, Flamengo, Vasco e Fluminense tinham um time, talvez, um ataque melhor do que o nosso”, admitiu o mestre.
A honestidade do diagnóstico era o primeiro passo. Joel sabia que não tinha o time mais estrelado, mas tinha um plano. A mística alvinegra pedia organização, pedia um general para arrumar as tropas. E ele o fez.
A Prancheta Mágica: ‘Arrumei, Organizei e Soltei o Time’
O que aconteceu a seguir foi pura magia tática, a mais pura essência do que é ser Botafogo: a superação através da inteligência e do trabalho. Joel não se intimidou com os ataques badalados dos rivais. Ele olhou para dentro, para as peças que tinha, e começou a montar seu quebra-cabeça.
“E nós começamos a arrumar. Eu comecei a trabalhar de um jeito, arrumei uma tática para nós. Botei aí outro de um lado, botei outro de outro lado. Arrumei, organizei. Quando eu organizei, eu soltei o time”, contou Joel. Essa simplicidade na explicação esconde a genialidade de quem entende de futebol e, mais importante, de como extrair o máximo de um elenco ferido em seu orgulho.
Aquele Botafogo se tornou uma fortaleza. Um time que sabia sofrer, que tinha uma defesa sólida e um ataque letal, comandado por um uruguaio que entraria para a história. O trabalho de Joel transformou a desconfiança em força, e a vergonha do 6 a 0 se tornou o combustível para a glória.
‘Ganhamos Porque Fomos os Melhores’: O Título Inesquecível
O resultado? Histórico. O Botafogo de Joel Santana não apenas se recuperou, mas atropelou. Conquistou a Taça Guanabara. Depois, levou também a Taça Rio. O regulamento da época premiava o campeão dos dois turnos com o título do Campeonato Carioca de forma direta. E assim foi. O Glorioso, que semanas antes era motivo de piada, erguia a taça sem precisar de final.
“Ganhamos porque nós fomos os melhores, porque trabalhamos mais. E nós tivemos a tática certa”, cravou Joel. Não foi sorte, não foi acaso. Foi competência, suor e uma fé inabalável na Estrela Solitária.
O ápice daquela campanha foi a final da Taça Guanabara contra o Flamengo. Uma vitória por 2 a 1, selada com um dos momentos mais icônicos da nossa história: o pênalti de Loco Abreu. A ‘cavadinha’. Um gesto de loucura e genialidade que parou o Maracanã. Um lance que até hoje vive na memória de Joel. “Agora, o Loco Abreu, as próximas vezes que ele bateu um pênalti como aquele, eu morro do coração. Até hoje eu tomo remédio por causa disso, porque ele nunca mais vai fazer isso na vida”, brincou o técnico, mostrando a paixão que aquele time despertava.
O Desafio de Agora: Uma Missão Ainda Maior
Hoje, 16 anos depois, o povo do Fogão se vê diante de um abismo semelhante. A goleada no Peru dói, e a tarefa contra o Cienciano é ainda mais difícil do que a recuperação de 2010. Não se trata de reconstruir para um campeonato, mas de operar um milagre em 90 minutos. Uma vitória por seis gols de diferença é o que nos separa do vexame ou da glória eterna.
Que a lição de Joel Santana sirva de inspiração. Que a memória daquela virada improvável incendeie o Nilton Santos. Que cada jogador em campo entenda que vestir essa camisa é carregar um legado de superação. A história nos ensinou que uma goleada sofrida pode não ser o fim do mundo. Às vezes, é apenas o violento estopim para a mais brilhante das vitórias.
Nossos Próximos Passos na Batalha
A caminhada é dura, mas a torcida alvinegra estará lá. Confira a agenda do Glorioso:
- Cienciano (Casa) – 20/08, 21h30 (de Brasília) – CONMEBOL Sul-Americana
- Athletico-PR (Casa) – 24/08, 20h (de Brasília) – Brasileirão
- Flamengo (Fora) – 30/08, 16h (de Brasília) – Brasileirão
Informações com base em reportagem do www.espn.com.br.