O Enigma de Franclim: 20 jogos, 19 times e a alma de um Botafogo que vence sem se encontrar

Com 19 escalações em 20 jogos, Franclim Carvalho comanda um Botafogo de ótimos números, mas sem time definido. Um enigma que a Fiel torcida tenta decifrar.

Franclim Carvalho em Atlético-MG x Botafogo — Foto: Fernando Moreno/AGIF

O Enigma de Franclim: 20 jogos, 19 times e a alma de um Botafogo que vence sem se encontrar

Vinte jogos. Dezenove escalações. Os números que definem o início da era Franclim Carvalho no Glorioso são, por si só, uma obra de arte do paradoxo. Um quebra-cabeça que a torcida alvinegra tenta decifrar a cada partida. De um lado, um aproveitamento que impõe respeito, de 61,7%. Do outro, uma instabilidade que nos tira o sono. Afinal, quem somos nós sob o comando do português? Uma força avassaladora ou um laboratório em eterno experimento?

Franclim completou sua vigésima partida no comando do Fogão no empate com o Fluminense, e a marca é um espelho da nossa condição: cheia de potencial, mas ainda em busca de uma identidade. É inegável que o time evoluiu, que a atitude é outra. Mas a pergunta que ecoa em General Severiano é: qual é o time titular do Botafogo? A resposta, por enquanto, parece estar soprando no vento.

Um Carrossel Chamado Glorioso

A única vez em que o nosso comandante repetiu uma escalação foi um retrato de um passado que já não existe. Aconteceu em abril, pelo Brasileirão. Primeiro, na goleada por 4 a 1 sobre a Chapecoense. Depois, no empate em 2 a 2 com o Internacional. Um breve suspiro de continuidade.

Mas o futebol, botafoguense, é cruel em sua velocidade. Daquele time que entrou em campo duas vezes seguidas, duas peças já não vestem mais o nosso manto sagrado. Neto rescindiu amigavelmente, enquanto Barboza foi vendido ao Palmeiras. Aquele esboço de time-base se desfez antes mesmo de se consolidar. É a mais pura tradução da mística alvinegra: quando pensamos ter uma certeza, o destino nos apresenta uma nova pergunta.

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Nos outros 18 confrontos, a prancheta de Franclim ferveu. Pelo menos uma mudança sempre foi feita. Ao todo, 34 jogadores diferentes já tiveram a honra de iniciar uma partida pelo Fogão sob seu comando. É uma rotatividade impressionante, que fala sobre a profundidade do elenco, mas também sobre a dificuldade em encontrar os 11 ideais.

Os Pilares em Meio ao Caos

Mesmo com tantas mudanças, alguns nomes se tornaram a espinha dorsal deste Botafogo de Franclim. São os homens de confiança do mister, aqueles que, com mais frequência, carregam a responsabilidade de liderar o time em campo.

  • Medina: O maestro argentino, nossa principal contratação do ano, foi titular em 16 dos 20 jogos. É o cérebro, o ponto de equilíbrio no meio-campo.
  • Arthur Cabral: O homem-gol, a referência na frente, esteve entre os 11 iniciais em 15 oportunidades.
  • Alex Telles, Ferraresi e Vitinho: O trio que completa o top 5 de confiança, cada um com 14 partidas como titular, formando a base defensiva e de transição da equipe.

Esses jogadores representam a constância possível dentro de um cenário de intensa reformulação. Franclim assumiu o time após a saída de Martín Anselmi e não teve medo de mexer, de testar, de buscar soluções em meio a lesões e a uma janela de transferências que viu atletas saindo e chegando.

A Fria Lógica dos Números: Glória e Frustração

Se a falta de um time fixo gera angústia, os resultados de Franclim, em sua maioria, trazem um sopro de esperança. São 10 vitórias, sete empates e apenas três derrotas. Um ataque que balançou as redes 35 vezes contra 21 gols sofridos. O aproveitamento de 61,7% é de time que briga na parte de cima da tabela.

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Na Copa Sul-Americana, essa força se torna quase tirania. Estamos invictos. Em seis jogos, foram cinco vitórias e um empate. Quinze gols marcados e apenas cinco sofridos, garantindo a melhor campanha geral da fase de grupos. Uma performance que nos faz sonhar alto, que nos faz acreditar que a Estrela Solitária pode brilhar em todo o continente.

Contudo, nem tudo são flores. No meio deste percurso de 20 jogos, há uma cicatriz que ainda dói: a eliminação precoce na Copa do Brasil. Vencemos a Chapecoense por 1 a 0 no Nilton Santos, mas a derrota por 2 a 0 na Arena Condá foi um golpe duro, um lembrete de que a inconsistência pode custar caro. No Brasileirão, a campanha é de meio de tabela, com quatro vitórias, seis empates e duas derrotas em 12 jogos sob seu comando. Irregular, como a própria escalação.

A ‘Nova Vida’ e a Chave para o Futuro

Após a parada para a Copa do Mundo, o time ainda não sabe o que é perder. Venceu Santos e Cruzeiro, empatou com Vitória e o rival Fluminense. Agora, a chave vira completamente para a obsessão continental. Na quinta-feira, o Cienciano nos espera nas oitavas da Sul-Americana. Franclim, com a sabedoria de quem conhece os perigos do favoritismo, nega qualquer soberba. Para ele, o mata-mata é uma “nova vida”.

E é nessa nova vida que o futuro do Botafogo será decidido. A comissão técnica agora tem novas peças à disposição. Chegaram os goleiros Warleson (que já foi titular) e Gabriel Batista, o zagueiro Lucas Monzón, o lateral-esquerdo Paulinho, o volante Domingos Andrade e o atacante Danilo Pereira. São mais opções para o mister, mas também mais um desafio: é hora de parar de testar e começar a consolidar.

A grande questão para a reta final da temporada é se Franclim Carvalho conseguirá, enfim, encontrar seu time. Se a rotação dará lugar à repetição. A torcida alvinegra, que vive de paixão e drama, aguarda ansiosamente. Queremos os resultados, mas também queremos um time para chamar de nosso. Que a busca pela alma do Glorioso termine com uma taça em nossas mãos.

Informações com base em reportagem do ge.globo.com.