A Estrela Solitária Chora em Noite de Caos
Não foi apenas uma eliminação. O que aconteceu na Arena Condá na última quinta-feira (14) foi a materialização de um pesadelo, a trilha sonora da crise que consome o Botafogo por dentro e por fora. Cair para a Chapecoense na quinta fase da Copa do Brasil, depois de ter a vantagem, não é um acidente de percurso; é um sintoma febril da doença que corrói General Severiano. E, como se o destino quisesse esfregar o sal na ferida aberta, no mesmo dia em que o apito final decretou nossa vergonha, a Justiça do Rio de Janeiro carimbava o selo da nossa falência: o pedido de recuperação judicial da SAF foi aprovado.
O campo e o tribunal, unidos em um abraço macabro. Enquanto nossos guerreiros (ou o que resta deles) se arrastavam em campo, os advogados lutavam em outra esfera. O clube, em nota oficial, confessou o que todo botafoguense já sentia na pele: um “grave cenário financeiro”, sufocado por punições da Fifa, dívidas vencendo e um caixa vazio. A Estrela Solitária nunca esteve tão só.
O Drama em Campo: ’22 Chutes, Zero Gol’
Falar que a culpa é do acaso é mentir para si mesmo. A eliminação foi construída, tijolo por tijolo, com a argamassa da incompetência. Levamos uma vantagem de 1 a 0 para a Arena Condá, um placar magro, mas que deveria ser suficiente. Não foi. Antes do intervalo, a Chapecoense, com muito menos time, mas com muito mais vontade, virou o jogo.
A partir daí, assistimos ao replay de um filme de terror que já conhecemos: a chuva de gols perdidos. Os números, frios e cruéis, não mentem. Somando os dois jogos contra a Chape, o Glorioso finalizou 42 vezes. QUARENTA E DUAS! Para apenas 12 chutes no alvo e um único, solitário e insuficiente gol. De nove grandes chances criadas, apenas uma foi para o fundo da rede. É a crônica de um fracasso anunciado.
O Desabafo de Franclim Carvalho: A Sentença do Comandante
Se havia alguma dúvida sobre a impotência do time, o técnico Franclim Carvalho a dissipou com uma sinceridade dolorosa na coletiva pós-jogo. Suas palavras ecoam o sentimento de cada um de nós, fiéis da Estrela.
“O futebol é assim. Sabíamos que o adversário ia se fechar diante da vantagem, com o apoio dos torcedores, fazendo cera. Normalíssimo”, começou o português, antes de cravar a sentença: “O árbitro é quem tem que dar mais tempo, mas eu acho que ele poderia dar mais dez minutos e não faríamos gol. Afinal, tivemos três, quatro chances claras de fazer e não fizemos.”
Ele não parou por aí, nomeando os fantasmas daquela noite. “Lembro de uma de cabeça, do Kadir, do Tucu (Joaquim Corrêa), com o pé esquerdo e de cabeça. Então, criamos o suficiente para fazer gol: 22 chutes, mas zero gol”, declarou Franclim. Um resumo perfeito da nossa tragédia.
Fora dos Gramados, o Abismo Financeiro
Enquanto a bola teimava em não entrar, a caneta da justiça assinava nosso atestado de crise. A recuperação judicial, embora necessária, expõe a ferida purulenta da gestão. O problema é que ela não é uma cura mágica. As punições da Fifa, os chamados ‘transfer bans’, continuam válidas e nos assombrando.
Temos três bloqueios de registro de jogadores por dívidas nas contratações de Rwan Cruz (ex-Ludogorets), Santi Rodríguez (ex-New York City FC) e a mais perigosa de todas: a dívida com o Atlanta United FC pela vinda do argentino Thiago Almada. E o pior: a própria SAF admite que essas dívidas não entram na renegociação da recuperação judicial. Elas precisam ser pagas integralmente.
A Espada Sobre a Cabeça: R$ 126 Milhões e a Ameaça de Perder Pontos
A situação com o Atlanta United é um barril de pólvora. São cerca de 25 milhões de dólares, o que na cotação atual significa aproximadamente R$ 126 milhões, que precisam ser quitados em até 90 dias. A punição caso não paguemos? A perda de seis pontos no Campeonato Brasileiro. Seria o golpe de misericórdia em um time que já cambaleia.
É um cenário desolador. Estamos proibidos de contratar, corremos o risco de começar o Brasileirão com pontuação negativa e, em campo, não conseguimos fazer o básico: colocar a bola na rede. É o caos completo.
Um Roteiro de Decepção que se Repete
Essa eliminação não é um ponto fora da curva. É a continuação de um roteiro de vexames que começou cedo em 2024. Ainda sob o comando de Martín Anselmi, fomos humilhados na Libertadores, caindo na terceira fase preliminar para o Barcelona, do Equador, dentro de um Nilton Santos lotado. Aquela queda custou o emprego de Anselmi em março. Agora, sob nova direção, o mesmo filme se repete.
A camisa que já foi vestida por gênios hoje parece pesada demais. A Estrela que nos guia parece ofuscada pela incompetência e pela crise. O que resta a nós, povo do Fogão? Resta a fé. Resta a teimosia. Resta a certeza de que, no fundo do poço, a única direção é para cima. Mas, por Deus, como está fundo este poço. Botafogo é isso aí.
Informações com base em reportagem do www.lance.com.br.