Uma Noite de Pesadelo em Casa
Há noites em que a Estrela Solitária parece se esconder, envergonhada. Há noites em que o tapete sagrado do Nilton Santos, nossa casa, nosso templo, vira palco para a festa de um adversário. A noite desta segunda-feira (24) foi uma dessas. Uma punhalada no coração do torcedor alvinegro, que viu o Botafogo ser derrotado por 3 a 2 pelo Athletico-PR, em um jogo que expôs velhas feridas e criou novas cicatrizes.
Não foi apenas uma derrota pela 24ª rodada do Campeonato Brasileiro. Foi a dor de ver um time visitante chegar ao Rio de Janeiro e, em questão de minutos, desmontar qualquer esboço de estratégia, qualquer pingo de esperança. O resultado? O time paranaense sobe para o terceiro lugar com 44 pontos, rindo da nossa desgraça, enquanto nós ficamos para contar os cacos.
Um Apagão de Dois Minutos que Custou o Jogo
Botafogo é isso aí. É a capacidade de transformar 90 minutos em uma montanha-russa de emoções, quase sempre com a queda mais brusca no final. Mas desta vez, o desastre veio cedo. Cedo demais. Um apagão de dois minutos, que será lembrado como o epicentro do terremoto que nos atingiu.
Aos 11 minutos do primeiro tempo, a defesa vacila. Gabriel Batista, nosso arqueiro, até tenta o milagre com uma primeira defesa, mas a bola sobra limpa, na pequena área, para João Cruz apenas empurrar para o fundo da rede. Um gol que nasce da desatenção, da falta de agressividade. Um gol que já anunciava a tempestade.
E ela veio, impiedosa. Mal tivemos tempo de respirar, de xingar, de lamentar. Aos 13 minutos, o erro que não se pode cometer. Um passe errado no meio-campo, uma bola entregue de presente para o adversário. E quem recebeu o mimo foi Kevin Viveros. O colombiano, livre como um pássaro, arrancou em nossa direção e, com uma frieza cortante, tocou na saída de Gabriel Batista. 2 a 0. Em 13 minutos. Em casa.
Viveros, o Carrasco da Noite e Novo Artilheiro do Brasil
Se a noite já era um pesadelo, ela ganharia contornos de filme de terror com um protagonista bem definido: Kevin Viveros. O atacante colombiano não estava satisfeito em castigar nossa defesa. Ele queria a coroa. E a conquistou em nosso gramado.
No segundo tempo, ele marcou de novo, selando o 3 a 0 e transformando a vitória do Athletico em goleada momentânea. Mas o gol mais dolorido não foi o que ele fez, mas o que ele significou. Com os dois tentos na noite, Viveros chegou a impressionantes 16 gols no Campeonato Brasileiro.
E com essa marca, ele se tornou o artilheiro isolado da competição. Sabe quem ele ultrapassou? Sim, ele mesmo. Pedro, o atacante do Flamengo, que liderava com 15 gols desde o último sábado, quando marcou na derrota de seu time para o Cruzeiro. Não bastasse a humilhação da derrota, o Fogão serviu de escada para um rival direto na artilharia, e ainda por cima, para superar um jogador do nosso maior rival. É o tipo de ironia cruel que só o futebol e o Botafogo são capazes de proporcionar.
Reação Tardia e a Dor de um Esforço Inútil
Quando tudo parecia perdido, quando a torcida já se dividia entre o silêncio da desolação e os gritos de protesto, o time mostrou um sopro de vida. Ou seria um último espasmo? Santi Rodríguez, um dos poucos que pareceu sentir o peso da camisa, chamou a responsabilidade.
Na reta final, o uruguaio marcou dois gols rápidos, diminuindo o placar para 3 a 2 e acendendo uma chama de esperança improvável. Por alguns minutos, acreditamos. Acreditamos que o impossível, a virada épica, a redenção, poderia acontecer. Mas era tarde demais. O estrago inicial fora grande demais para ser consertado. O apito final soou como uma sentença: a reação foi nobre, mas inútil.
Saímos de campo com a derrota, com a frustração de uma reação que morreu na praia e, acima de tudo, com a imagem de Kevin Viveros comemorando em nossa casa. Um jogador que, segundo ele mesmo disse na entrevista pós-jogo, ainda nem fez gol de cabeça no campeonato. Não precisou. Nós demos os gols de bandeja. Que essa noite dolorosa sirva de lição. Que a Estrela Solitária volte a brilhar, pois a escuridão de uma derrota como essa é pesada demais para a alma do povo do Fogão.
Informações com base em reportagem do www.lance.com.br.