Uma Noite para a Eternidade: Onde a Lógica se Curva à Paixão
Existem noites de futebol. E existem noites em que o Botafogo decide ser Botafogo. Noites em que o roteiro mais insano, o drama mais cruel e a glória mais arrebatadora se encontram no mesmo gramado sagrado. O dia 14 de outubro de 2006 foi uma dessas noites. Diante de um Santos que sonhava com o título, no palco imenso do Maracanã, o Glorioso escreveu um de seus capítulos mais improváveis e poéticos.
Aquele Campeonato Brasileiro de 2006, o primeiro com 20 clubes no formato de pontos corridos, era uma arena de gladiadores. Cada rodada, uma final. Nós, o povo do Fogão, vivíamos sob a sombra do rebaixamento, um fantasma que assombrava nossos sonhos. Cada jogo era uma batalha pela sobrevivência. Do outro lado, um Santos estrelado, comandado pelo experiente Vanderlei Luxemburgo, caçava o líder São Paulo. Eram mundos opostos, objetivos distintos, mas uma mesma necessidade: a vitória.
Na beira do campo, o duelo de mentes era um espetáculo à parte. De um lado, o nosso jovem e arrojado Cuca, tentando extrair o máximo de um elenco valente. Do outro, Luxemburgo, com seu ego e sua prancheta multicampeã. Mas naquela noite, a mística da Estrela Solitária falaria mais alto.
Um Primeiro Tempo de Soberania Alvinegra
Desde o apito inicial, o Botafogo mostrou a que veio. Era o nosso jogo de número 800 na história do Brasileirão, e a equipe entrou em campo com a fome de quem defende uma nação. Wando infernizava a defesa santista, Juninho soltava bombas de fora da área. O Glorioso encurralava o time paulista, que se segurava como podia e tentava respirar nos lampejos de Zé Roberto.
A pressão era insustentável. E aos 19 minutos, o Maracanã explodiu. O ala Júnior César, em noite de gala, fez o que quis pelo lado esquerdo. Ele levantou a cabeça e cruzou na medida, com o veneno que a torcida alvinegra gosta. No meio da zaga perdida do Santos, o zagueiro Asprilla subiu como um gigante e testou firme para o fundo das redes. 1 a 0! A festa começava.
O Santos, ferido, encontrou um gol aos 31 minutos, numa jogada individual de Wellington Paulista que Kléber aproveitou no rebote do nosso goleiro Max. Um balde de água fria? Jamais! Botafogo é isso aí! Antes que o intervalo chegasse, a nossa arma letal voltou a funcionar. Aos 43, novamente ele, o dono da lateral, Júnior César, cruzou com perfeição. Desta vez, foi o atacante Reinaldo quem subiu mais alto que todos para cabecear e nos colocar de novo em vantagem. 2 a 1! Fomos para o vestiário com a alma lavada e o peito estufado de orgulho.
O Pesadelo da Virada e o Silêncio no Maracanã
Luxemburgo, irritado com a fragilidade de sua defesa, mudou o time no intervalo. Desfez o esquema com três zagueiros, lançou Rodrigo Tabata e o centroavante Reinaldo (o deles). A mudança, para nosso desespero, surtiu efeito imediato. O Santos voltou diferente, mais agressivo, mais perigoso.
Logo aos 6 minutos, o castigo. Reinaldo (o deles) roubou a bola de Diguinho e serviu Wellington Paulista, que fuzilou sem chance para Max. O empate em 2 a 2 caiu como uma bigorna sobre o Maracanã. O time sentiu. A torcida, apreensiva, via o adversário crescer e dominar o jogo.
O pior ainda estava por vir. O tempo passava, o nervosismo tomava conta, e aos 34 minutos da etapa final, o golpe que parecia fatal. Em um contra-ataque mortal, o craque Zé Roberto encontrou Reinaldo (de novo, o deles), que tocou com uma categoria fria para virar o jogo. 3 a 2 para o Santos. O silêncio que tomou o estádio era ensurdecedor. A derrota, que nos jogaria de volta ao abismo, parecia selada.
Quando a Estrela Brilha: A Ressurreição em Sete Gols
É nesse momento que o Botafogo se distingue dos clubes comuns. Quando a derrota é certa, quando o torcedor rival já canta vitória, quando a lógica aponta para o fim. Foi aí que a Estrela Solitária decidiu brilhar com mais força.
A derrota parecia desenhada, mas na beira do campo, a estrela do técnico Cuca brilhou. O que se viu nos minutos finais foi a mais pura tradução do que é ser botafoguense. Foi a catarse, a ressurreição, a epopeia. Em uma emocionante e caótica chuva de gols, como as crônicas da época descrevem, o Glorioso não se entregou. O time foi para cima com o coração na ponta da chuteira, empurrado por uma torcida que se recusava a aceitar o fim.
E o impossível aconteceu. Em uma virada espetacular, nos minutos finais, o Fogão não apenas empatou, como virou o placar para um histórico 4 a 3. O Maracanã, que minutos antes estava em luto, explodiu em um delírio coletivo. Luxemburgo, incrédulo no banco, assistia à festa da mística alvinegra. Foi uma vitória para lavar a alma, para afastar o fantasma do rebaixamento e para cravar na memória de cada um de nós que, com esta camisa, nada, absolutamente nada, é impossível.
Informações com base em reportagem do www.lance.com.br.