Há noites que a Estrela Solitária parece chorar. Esta segunda-feira, no encerramento da 24ª rodada do Brasileirão, foi uma delas. Em nosso templo, o Nilton Santos, o que deveria ser uma festa alvinegra se transformou em um roteiro de terror, com direito a falhas cruéis, um apagão inexplicável e um carrasco que atende pelo nome de Viveros. A reação tardia, nascida da garra de um guerreiro chamado Santi Rodríguez, serviu apenas para tornar a derrota mais amarga.
O Botafogo é isso aí. É sentir o coração sair pela boca na esperança e, logo em seguida, afundar no peito com o peso da realidade. E a realidade, hoje, foi dura, cruel e expôs feridas que teimamos em acreditar que já estavam cicatrizadas.
O Apagão que Custou o Jogo
O pesadelo começou a se desenhar cedo. Aos dez minutos do primeiro tempo, um lance que resume a angústia botafoguense. Uma bola que deveria ser de segurança nos pés de Medina se transforma em um presente para o adversário. Jadson, atento, pressiona e rouba a bola. O passe encontra Viveros, que devolve para o volante soltar a bomba. Gabriel Batista, nosso goleiro, até tenta, mas o rebote traiçoeiro cai nos pés de João Cruz. Gol deles. 1 a 0. Uma lambança, um erro primário que abriu as portas do inferno.
E o que já era ruim, virou bagunça. O torcedor alvinegro mal teve tempo de digerir o golpe. Apenas dois minutos depois, aos doze, a cena se repete. Novo erro na saída de bola, uma falha de concentração coletiva que o Furacão, impiedoso, não perdoou. Kauan Toledo recebe, Dantas tenta o bote, mas a bola, caprichosa e cruel, sobra limpa, na meia-lua, para Viveros. Sozinho, livre, ele teve apenas o trabalho de deslocar Gabriel Batista. 2 a 0. Em dois minutos, o jogo parecia perdido.
Viveros, o Carrasco da Noite Gloriosa
Se um nome ecoará em nossos pesadelos esta noite, será o de Viveros. O colombiano não foi apenas um jogador do Athletico; ele foi o algoz, o protagonista da nossa tragédia particular. Depois de participar do primeiro gol e marcar o segundo, ele ainda tinha mais veneno para destilar.
Já no segundo tempo, aos trinta e três minutos, quando um fio de esperança ainda piscava, veio o golpe de misericórdia. Vargas, em uma jogada individual fulminante, rasga nossa defesa, passa por três marcadores como se fossem cones e entrega um passe açucarado, rasteiro, para o carrasco da noite. Viveros domina, ajeita e bate cruzado. A bola, como que para aumentar o drama, ainda beija a trave antes de morrer no fundo da nossa rede. Um gol que selou a vitória deles e a nossa humilhação.
Um Guerreiro Chamado Santi Rodríguez
Na escuridão que tomou conta do Niltão, uma pequena luz insistiu em brilhar. Santi Rodríguez. O uruguaio se recusou a aceitar a derrota passivamente. Ele vestiu a camisa do Glorioso com a honra que a noite exigia e lutou, quase sozinho, contra o impossível.
Aos trinta e nove do segundo tempo, a primeira faísca. Após cobrança de escanteio de Alex Telles e um bate-rebate na área, a bola sobrou para ele. De canhota, Santi não hesitou. O chute desviou no meio do caminho, enganando o goleiro Santos, e estufou as redes. Um gol de raça, de quem não entrega os pontos.
E ele não parou. Já aos quarenta e seis, nos acréscimos, o coração do povo do Fogão voltou a bater mais forte. Novo escanteio, desta vez cobrado por Matheus Martins. Vitinho tenta a finalização, a bola escapa, mas quem estava lá? Santi Rodríguez, o homem certo na hora certa, para empurrar para o gol e nos fazer sonhar com um milagre que, infelizmente, não veio.
Números que Doem e um Futuro Incerto
A derrota em casa dói, mas os números mostram um histórico que já nos alertava. Com este jogo, o confronto direto soma 59 partidas, com uma vantagem para o Athletico-PR de 28 vitórias, contra 21 triunfos do Botafogo e 10 empates. O retrospecto recente também não era favorável, e a noite de hoje confirmou a dificuldade.
Saímos do Nilton Santos com o gosto amargo da derrota, a frustração pelos erros que nos custaram caro e a admiração pela luta solitária de Santi. Fica a pergunta que não quer calar: até quando a garra de um será suficiente para tentar compensar o apagão de tantos outros? A Estrela Solitária segue no peito, mas hoje, ela brilha com lágrimas.