Um Mar de Esperança, um Oceano de Decepção
A noite de quinta-feira (20) no Nilton Santos era para ser de redenção, de uma virada que ficaria na história. Mas o que ecoou no templo alvinegro foi o som da dor, da frustração e, para completar a humilhação, da zombaria. O Botafogo venceu o Cienciano por 1 a 0, um placar que, isolado, seria motivo de aplausos. Contudo, no futebol, a matemática às vezes é cruel. O placar agregado de 6 a 2 para os peruanos transformou nossa casa em um palco de desolação.
O apito final não encerrou o sofrimento. Pelo contrário, apenas abriu um novo e amargo capítulo. A vitória magra, conquistada com o sangue e suor que restavam, não serviu para nada além de tornar a ferida mais profunda. A Estrela Solitária, que por dez minutos brilhou com esperança, foi ofuscada pela dura realidade de uma eliminação vexatória na Copa Sul-Americana.
Sob o comando do interino Rodrigo Bellão, o Glorioso entrou em campo com a faca entre os dentes. A torcida, mesmo ciente da missão quase impossível, empurrava. E o gol veio. Aos dez minutos, como um sopro de vida, Danilo balançou as redes após um passe preciso de Álvaro Montoro. O Niltão explodiu. Por um instante, acreditamos. Acreditamos que a mística alvinegra, tantas vezes invocada, se faria presente mais uma vez.
Mas a noite reservava um roteiro de tortura. O que se seguiu foi um desfile de chances perdidas que, agora, na solidão do pós-jogo, ecoam como fantasmas. Arthur Cabral, em duas oportunidades claras, não conseguiu converter. Vitinho, em outra, também falhou. Um segundo gol de Danilo ainda foi anulado por um toque no braço, um detalhe cruel do destino. Cada oportunidade desperdiçada era um prego no caixão da nossa esperança, enquanto o Cienciano, acuado, apenas assistia ao nosso drama.
O Apito que Calou o Nilton Santos
Se o primeiro tempo foi de esperança e agonia, o início do segundo foi o golpe de misericórdia. Aos três minutos, um lance que resumiu a noite de horrores. Pênalti marcado sobre Alex Telles. A chama da virada reacendeu com força total. Mas o futebol moderno tem um novo protagonista, muitas vezes vilão: o VAR.
O árbitro Juan Benítez foi chamado ao monitor. Seguiram-se cinco longos e angustiantes minutos de paralisação. Cinco minutos que congelaram o estádio, que drenaram a energia do time e da torcida. A decisão, como um soco no estômago, foi anular a penalidade por uma falta na origem do lance. Foi o fim. Ali, o Botafogo se desintegrou em campo.
A irritação com a arbitragem, a frustração com a anulação e o cansaço emocional quebraram o espírito do time. O que se viu a partir dali foi um amontoado de erros, um time sem alma, arrastando-se em campo, reflexo do torcedor que, na arquibancada, via o sonho se transformar em um pesadelo grotesco. As vaias ao final do jogo não foram para um jogador ou outro; foram um grito coletivo de uma alma alvinegra ferida.
A Ferida Aberta: A Provocação Peruana
E quando pensávamos que a humilhação havia atingido seu ápice, o Cienciano tratou de jogar sal, pimenta e limão na ferida aberta. Diretamente do Peru, via redes sociais, veio o deboche. O clube peruano, classificado apesar da derrota no Rio, não teve pudor e disparou uma série de provocações no X (antigo Twitter).
Em uma das postagens, a mais vil, uma tradução que dizia: “E sim, a Smartfit também é uma academia para classificados!”. Uma piada de mau gosto, uma tentativa de nos diminuir ainda mais, de tripudiar sobre a nossa dor. Eles não se contentaram em nos eliminar. Eles precisaram esfregar a classificação na nossa cara, rir da nossa desgraça, mostrar ao mundo que a dor do Fogão era motivo de festa para eles.
Essa atitude mesquinha apenas expõe a pequenez de quem precisa diminuir o adversário para se sentir grande. O Botafogo caiu, é verdade. Caímos de forma dolorosa, com erros nossos e com uma arbitragem contestável. Mas caímos lutando até onde a alma permitiu.
Agora é Guerra: Só nos Resta o Brasileirão
A Sul-Americana acabou. O sonho continental virou pó. A eliminação deixa uma cicatriz profunda e um gosto amargo que demorará a passar. O que nos resta? O que sempre nos restou nos momentos mais difíceis: a paixão incondicional e a guerra que se chama Campeonato Brasileiro.
Não há tempo para lamentar. É preciso lamber as feridas, levantar a cabeça e entender que cada partida no Brasileirão será uma final. A torcida, que vaiou por frustração, será a mesma que irá abraçar o time na próxima batalha. Porque ser botafoguense é isso. É sofrer com o time, é chorar com o time, mas, acima de tudo, é nunca abandonar o time. A provocação do Cienciano deve servir de combustível. Que a raiva se transforme em força. A Estrela Solitária está ferida, mas jamais será apagada.