A Sombra de 2024 e a Queda Anunciada
Acabou. Franclim Carvalho não é mais o comandante do Botafogo. Para o torcedor alvinegro, a notícia soa menos como uma surpresa e mais como a crônica de uma demissão anunciada. O português, que carregava nas costas o peso de ter sido auxiliar no mágico ano de 2024 sob a batuta de Artur Jorge, nunca conseguiu se livrar do fantasma do sucesso passado. A Estrela Solitária, que um dia brilhou forte com sua ajuda, parecia ofuscada em suas próprias mãos.
Olhar friamente para os números pode enganar os desavisados. Em 22 partidas, Franclim somou 10 vitórias, 7 empates e apenas 5 derrotas. Um aproveitamento que, no papel, parece decente. Mas o futebol, e principalmente o Botafogo, não se resume a estatísticas. O diabo, como sempre, mora nos detalhes. E os detalhes de Franclim foram cinco punhais cravados no coração da torcida alvinegra, em momentos onde vacilar era proibido.
As Derrotas que Custaram um Emprego
Contratado em abril para apagar o incêndio deixado pela saída de Martín Anselmi, em meio a um turbilhão político na SAF, Franclim até teve um início promissor. Foram sete jogos de invencibilidade que trouxeram um breve sopro de esperança. Mas a falta de uma identidade, de um time com ‘cara de Botafogo’, cobrou seu preço na primeira derrota. E que derrota.
Foi um roteiro que se repetiria de forma dolorosa. As cinco derrotas sob seu comando não foram tropeços comuns, foram verdadeiros colapsos em jogos capitais:
- A virada para o Remo: Em casa, com o apoio do nosso povo, o time criou, martelou, mas não matou o jogo. O castigo veio com uma virada inexplicável, um golpe duro na moral da equipe e da torcida.
- A eliminação na Copa do Brasil: Após uma vitória magra por 1 a 0 sobre a Chapecoense no Nilton Santos, com inúmeros gols perdidos, a decisão foi para Chapecó. Franclim mexeu no time e viu, impotente, a equipe ser dominada e perder por 2 a 0 na Arena Condá. Um adeus precoce e amargo.
- O empate com sabor de derrota: Após longos 12 dias de treinos, a expectativa era de um time avassalador contra o Fluminense. O que se viu foi um empate frustrante por 1 a 1 contra os reservas do rival, em nossa própria casa. A paciência da torcida começou a se esgotar ali.
- A humilhação em Cusco: A goleada por 6 a 1 para o Cienciano, na altitude, foi o fundo do poço. Em seu primeiro desafio do tipo, o técnico optou por um time ofensivo e viu a estratégia ruir de forma catastrófica. Foi um vexame histórico, uma mancha na nossa camisa.
- O golpe final em Salvador: Pressionado, Franclim teve uma última chance contra o Vitória. Mas o time, mais uma vez, não respondeu. Uma atuação apática e uma derrota por 1 a 0 selaram o destino que já estava traçado. Dois dias depois, a reunião com a diretoria apenas oficializou o inevitável.
Um Time sem Rosto, um Meio-Campo Perdido
Mesmo com a casa sendo arrumada fora de campo, com o aporte financeiro da GDA e o fim dos ‘transfer bans’ da FIFA, a identidade em campo jamais apareceu. Franclim teve tempo, teve reforços chegando após a Copa do Mundo, mas o Glorioso parecia um time montado no improviso a cada semana.
A começar pelo gol, onde o pedido para reintegrar Neto se mostrou um erro, com o goleiro tendo um desempenho ruim. No meio-campo, o coração de qualquer equipe, residiu o maior problema. Danilo, nossa principal peça de criação no primeiro semestre, voltou da Copa irreconhecível, sem a mesma chegada na área e o brilho de antes. Montoro, por sua vez, oscilou e sofreu quando escalado na esquerda, longe de sua zona de conforto.
Nem tudo foi escuridão, é justo dizer. O treinador teve o mérito de promover o zagueiro Justino, que se firmou como um bom valor no pós-Copa. O maior acerto, talvez, tenha sido a consolidação de Huguinho como titular. O volante deu novo fôlego ao setor, liberando Medina e Danilo das tarefas de marcação que os sobrecarregavam. No ataque, Arthur Cabral viveu seu melhor momento em 2026, com mais liberdade para se movimentar. Mas de que adianta brilho individual se o coletivo não funciona nos momentos decisivos?
O Fim de um Ciclo e o Início da Revolução
A passagem de Franclim Carvalho pelo Botafogo será lembrada como a de um técnico que não entendeu o que é ser Botafogo. Um profissional que, apesar de conhecer os corredores de General Severiano, não soube injetar no time a mística, a garra e a inteligência tática que os momentos grandes exigem.
A sombra de 2024, que ele tanto tentou apagar, acabou por engoli-lo. Agora, com sua demissão e o anúncio de uma reformulação completa no departamento de futebol, com Paulo Bonamigo chegando como coordenador técnico, uma nova página começa a ser escrita. Que ela seja de glórias, de identidade e, acima de tudo, de um Botafogo que honre sua história. Porque ser Botafogo é muito mais do que números em uma planilha. É alma, é paixão, é Estrela Solitária no peito.
Informações com base em reportagem do ge.globo.com.