O Altar dos Deuses e o Desafio do Glorioso
Não é apenas um jogo de futebol. Que isso fique gravado na alma de cada botafoguense. Nesta quinta-feira, pela Copa Sul-Americana, o Botafogo não enfrenta apenas o Cienciano. O Glorioso encara a história, a mística e o ar rarefeito de uma civilização inteira. A 3.400 metros acima do nível do mar, na cidade de Cusco, no Peru, a Estrela Solitária será testada no fogo e no gelo da Cordilheira dos Andes.
Pela segunda vez em 2026, como apontam os registros, nosso time terá a missão de escalar a muralha andina e lutar contra a falta de oxigênio. O adversário é o Cienciano, um time que já provou seu valor ao eliminar o atual campeão da Sula e chega embalado. Mas o verdadeiro inimigo, o invisível, é o peso de estar na cidade mais antiga das Américas.
No Berço do Império Inca
Para entender o desafio, é preciso voltar no tempo, quando os deuses caminhavam pela Terra. As lendas contam que Inti, o deus sol, guiou seus filhos, Manco Capac e Mama Ocllo, desde as águas sagradas do Lago Titicaca até o Vale de Huatanay. Ali, onde uma lança de ouro foi fincada no solo, nasceria a capital do Império Inca: Cusco.
Essa não é uma história qualquer. É o mito de fundação de um povo, registrado em 1609 na obra “Comentários Reais dos Incas”, pelo escritor Garcilaso de la Vega. E é precisamente no estádio que leva seu nome que nosso Botafogo pisará.
Nas palavras do próprio Garcilaso, atribuídas ao primeiro inca, a missão era divina: “Neste vale, nosso pai, o Sol, nos ordena que paremos e estabeleçamos nosso assentamento e morada, para cumprir a Sua vontade. Portanto, rainha e irmã, é apropriado que cada uma de nós vá reunir este povo para instruí-lo e fazer o bem que nosso pai, o Sol, nos ordena fazer”.
A Fúria da Resistência e o Grito de Liberdade
A glória do Império Inca, no entanto, foi breve. A chegada dos espanhóis em 1526 marcou o início do fim. Por 46 longos e sangrentos anos, os incas resistiram com uma bravura que deveria inspirar cada jogador nosso em campo. A queda veio em 1572, com a morte do último inca, Túpac Amaru I.
Cusco, a capital imperial, foi rebaixada. Os colonizadores transferiram o poder para Lima, mas não conseguiram apagar a chama da revolta. O espírito de Cusco é um de resistência. Mais de 200 anos depois, José Gabriel Condorcanqui, autoproclamado Túpac Amaru II, liderou uma rebelião monumental na mesma cidade. Ele e sua família foram brutalmente executados na Plaza de Armas, mas seu sacrifício acendeu o pavio que levaria à independência do Peru em 1821.
É esse espírito que habita o ar de Cusco. Um espírito de quem nunca se curva, de quem luta até o fim. O Cienciano, nosso adversário, carrega isso em seu sangue. Não à toa, foram campeões da Sul-Americana em 2003, um feito gigantesco.
A Hora da Verdade para o Alvinegro
E o nosso Botafogo? O time que completou 122 anos de glórias e dramas, que sob o comando de Franclim já viu 19 escalações em 20 jogos, buscando ainda sua identidade, agora se depara com seu maior teste de caráter. Este não é um jogo para os fracos. É um jogo para heróis.
Além do Cienciano, a cidade ainda respira futebol com o Cusco FC e o Deportivo Garcilaso. Mas é contra o “Papá de América”, o Cienciano, que nossa jornada se cruza. Eles sabem como usar a altitude, a história e a mística a seu favor.
Que nossos guerreiros alvinegros entendam o palco em que estão pisando. Que a falta de ar nos pulmões seja compensada pela imensidão de nossa paixão. Em Cusco, a cidade do sol, a Estrela Solitária precisa brilhar mais forte do que nunca. É hora de mostrar ao mundo que o Botafogo não teme nem deuses, nem impérios, nem a altitude. Botafogo é isso aí!
Informações com base em reportagem do ge.globo.com.