O Paradoxo que Dói na Alma Alvinegra
Ser botafoguense é conviver com a poesia e o drama, com a genialidade e o inexplicável. E o retrato fiel dessa montanha-russa de emoções está desenhado nos números do Glorioso no Campeonato Brasileiro. Uma dualidade que nos faz sonhar e nos acorda com pesadelos: temos o terceiro melhor ataque da competição, uma máquina de fazer gols com 34 bolas na rede. Mas, ao mesmo tempo, carregamos o fardo de ser a quarta pior defesa, vazada em 32 ocasiões. É a imagem de um gigante com um punho de aço e um calcanhar de vidro.
Essa esquizofrenia em campo tem um preço, e ele é caríssimo. Um preço que se mede em pontos, em posições na tabela e em sonhos adiados. A matemática é cruel e não mente: são 13 pontos. Treze. Deixados pelo caminho em partidas onde a Estrela Solitária brilhou primeiro, mas não conseguiu sustentar sua luz até o fim.
A Vice-Liderança que Escapou por Entre os Dedos
Vamos fazer um exercício que todo torcedor faz na mesa do bar, mas que aqui se torna um documento da nossa dor. O Botafogo esteve na frente do placar em cinco jogos neste Brasileirão e não venceu. Foram três derrotas amargas e dois empates com sabor de derrota.
Some os pontos: três daqui, três dali, dois de lá… são 13 pontos que evaporaram. Em um universo paralelo, um universo onde nossa defesa honrasse o nosso ataque, teríamos hoje 42 pontos na tabela, não os atuais 29. Seríamos os vice-líderes do campeonato, brigando no topo, onde é o nosso lugar.
Essa conta hipotética não serve para nos torturar, mas para escancarar a realidade: os problemas defensivos estão anulando o brilho de um ataque avassalador e nos impedindo de alcançar voos mais altos.
Crônicas de Derrotas Anunciadas: Os Jogos da Frustração
A memória do torcedor não falha. Cada um desses pontos perdidos tem nome, data e um roteiro de tragédia grega. Vamos relembrar os capítulos desse drama que parece não ter fim.
Contra o Grêmio: O Colapso de 10 Minutos
Ainda na segunda rodada, o prenúncio. Arthur Cabral nos colocou na frente. Carlos Vinícius empatou, mas a alma guerreira do Glorioso falou mais alto e Danilo nos fez ir para o intervalo vencendo por 2 a 1. O que aconteceu no segundo tempo é digno de um filme de terror. Em menos de dez minutos, vimos a vitória virar pó. Carlos Vinícius, duas vezes, e Tetê transformaram nossa vantagem em um placar de 4 a 2 para eles. O jogo terminou 5 a 3. Saímos de campo sem entender como o céu desabou tão rápido.
Contra o Coritiba: A Alegria que Durou Três Minutos
No Nilton Santos, nossa casa, a história se repetiu com requintes de crueldade. Saímos atrás, mas buscamos o empate com Danilo e a virada com o artilheiro Arthur Cabral aos 31 do segundo tempo. A explosão de alegria no estádio, a sensação de vitória… durou três minutos. Apenas três. Foi o tempo que Lavega precisou para aproveitar uma falha nossa e decretar o 2 a 2. Um balde de água fria em nossa própria festa.
Contra o Internacional: O Filme Repetido
Parece roteiro repetido, não é? Danilo, sempre ele, abre o placar. Cinco minutos depois, o empate com Carbonero. Medina, com raça, nos coloca na frente de novo. A vantagem, desta vez, durou dez minutos, até Bernabei igualar tudo. Mais dois pontos que escorrem pelas mãos, mais uma vez por não sabermos segurar um resultado que era nosso.
Contra Remo e Bahia: A Mesma Dor
A lista de horrores não para. Contra o Remo, Ferraresi marcou logo aos 12 minutos. Fomos para o intervalo com a vantagem, com a faca e o queijo na mão para ampliar. Mas, de novo, a equipe não sustentou. O mesmo aconteceu contra o Bahia, outra partida onde saímos na frente para, no fim, lamentarmos a derrota. São feridas que se acumulam e testam a paciência do mais fiel dos torcedores.
Até Quando, Glorioso?
A pergunta que ecoa em General Severiano é uma só: até quando? Até quando teremos um time capaz de criar obras de arte no ataque, mas que se desfaz com um sopro na defesa? O talento ofensivo existe e nos enche de esperança a cada partida. Nomes como Danilo e Arthur Cabral mostram que podemos ferir qualquer adversário.
Mas o futebol, esse esporte maravilhoso e cruel, nos ensina que campeonatos são ganhos com equilíbrio. De nada adianta construir um palácio na frente se os alicerces de trás são de areia. A torcida alvinegra, que nunca abandona, clama por solidez, por segurança, por tranquilidade. Queremos poder comemorar um gol sem o medo imediato de sofrer outro em seguida. A Estrela Solitária precisa brilhar por 90 minutos. Chega de brilhar e apagar. Acorda, Fogão!
Informações com base em reportagem do ge.globo.com.