De pilar da glória ao adeus melancólico
Parecia um conto de fadas. Bastos, o zagueiro angolano que chegou em agosto de 2023, se transformou em um dos pilares do time que nos levou ao topo do Brasil e da América. Campeão do Brasileirão e da Libertadores, seu nome estava gravado na história do Glorioso. Mas, como todo botafoguense sabe, em General Severiano, a linha entre a glória e o drama é tênue. Nesta quinta-feira, a saga de Bastos no Fogão chegou a um fim amargo, com a rescisão de seu contrato oficializada no BID da CBF. Uma relação que se desfez em meio a lesões, atrasos e desgastes.
A história do fim começou, ironicamente, logo após o auge. Com as taças do Brasileiro e da Libertadores ainda brilhando em nossa galeria, a primeira fissura apareceu. Segundo apuração do portal Globo Esporte, o zagueiro se reapresentou uma semana depois de todo o elenco, gerando um mal-estar inicial. O clima de euforia pelas conquistas ajudou a contornar a situação, mas era apenas o primeiro capítulo de uma novela que se estenderia por meses.
A interminável saga da lesão
A situação de Bastos se complicou de vez por conta de uma lesão na coxa, sofrida no final da temporada de 2024. Foi aqui que a confiança começou a ruir. O Núcleo de Saúde e Performance do Botafogo recomendou um procedimento cirúrgico, mas o jogador bateu o pé. Optou por um tratamento conservador, com um médico de sua confiança, acreditando ser o caminho mais rápido para voltar aos gramados.
O tempo, no entanto, se mostrou um juiz implacável. O zagueiro chegou a ser inscrito para a disputa da Copa do Mundo de Clubes, em junho, mas o destino interveio. Durante os treinos nos Estados Unidos, a lesão voltou a assombrar. Foi a gota d’água. Bastos, enfim, aceitou a necessidade da cirurgia. O clube, demonstrando boa-fé, liberou o atleta para realizar o procedimento na Itália, onde possui residência, e até enviou o Dr. Tiago Carminatti, especialista em cirurgia de joelho, para acompanhar de perto.
A operação aconteceu no dia 2 de julho. A expectativa inicial do Alvinegro era de um retorno aos treinos em três meses. Mas a recuperação foi um caminho tortuoso. Após um pós-operatório de 50 dias na Europa, ele retornou ao CT do Lonier no fim de agosto, onde o caso passou a ser tratado internamente como uma “lesão complexa”.
Um retorno que nunca aconteceu de verdade
Os meses se arrastaram e a torcida alvinegra esperava ansiosamente pelo retorno de seu xerife. De acordo com a fonte, ele até chegou a atuar por três minutos na vitória sobre o Nova Iguaçu, em 6 de fevereiro de 2025, mas foi um falso alarme. A volta definitiva só aconteceria quase um ano depois, em 1º de fevereiro de 2026, na derrota para o Fluminense. Sob o comando de Martín Anselmi, Rodrigo Bellão e Franclim Carvalho, o Bastos campeão nunca mais foi visto em campo. Ele não conseguiu se destacar e a sombra do jogador dominante que foi em 2024 pairava sobre suas atuações.
A lista de problemas que levaram ao divórcio foi longa e dolorosa, um verdadeiro roteiro de desencontros:
- Chegada em agosto de 2023: Início da trajetória no clube.
- Pós-títulos (2024): Reapresentação com uma semana de atraso.
- Fim de 2024: Sofre lesão na coxa.
- Início de 2025: Recusa cirurgia recomendada pelo clube e opta por tratamento pessoal.
- Junho de 2025: Volta a sentir a lesão durante treinos para o Mundial de Clubes.
- 2 de julho de 2025: Realiza cirurgia na Itália.
- Fevereiro de 2026: Volta a jogar, mas sem o mesmo brilho.
A gota d’água e o fim da linha
O golpe de misericórdia na já desgastada relação veio após a pausa do Brasileirão para a Copa do Mundo. O elenco se reapresentou para a intertemporada, mas um nome estava ausente: Bastos. A apuração do GE revelou que a ausência foi um ato de protesto do jogador, insatisfeito com dívidas que o clube teria com ele. Para o Botafogo, foi um ato de indisciplina. O resultado foi uma multa e a certeza de que o caminho juntos havia chegado ao fim.
Nos últimos dias, as partes negociaram os termos da rescisão, que foi selada nesta quinta-feira. Fica a imagem de um jogador que foi do céu ao inferno com a nossa camisa. Um herói das maiores glórias recentes que se despede pela porta dos fundos. Para nós, fiéis da Estrela Solitária, fica a pergunta: o que pesará mais na memória, os gols e desarmes do título ou a melancolia de um final tão conturbado? O Botafogo é isso aí, uma montanha-russa de emoções. E a fila anda. Adeus, Bastos, e que a Estrela Solitária siga nos guiando.
Informações com base em reportagem do ge.globo.com.