A Dor da Derrota, a Força da Verdade
A noite deste sábado (30) tinha tudo para ser mais uma daquelas que assombram o torcedor do Botafogo. Uma virada cruel por 2 a 1 para o Bahia, fora de casa, com um jogador a menos por quase todo o segundo tempo. O roteiro do sofrimento, tão conhecido por nós, fiéis da Estrela Solitária. Mas das cinzas de uma derrota injusta, ergueu-se uma voz. A voz de Arthur Cabral, o camisa 19, que, em um desabafo histórico, lavou a alma de cada alvinegro que assistia atônito ao que acontecia na Fonte Nova.
Não foi apenas uma entrevista. Foi um manifesto. Com a fúria de quem veste o manto sagrado e sente a dor da injustiça na pele, Cabral não se calou. Mirou sua artilharia contra a arbitragem, contra as condições vergonhosas do gramado e, de quebra, expôs a hipocrisia que corrói o futebol brasileiro, com um recado direto para Fernando Diniz.
A Falta de Critério que Sangra o Glorioso
O primeiro alvo da indignação do nosso atacante foi a arbitragem de Davi Lacerda. Mas não de forma rasa. Arthur Cabral, com a inteligência que se espera de um jogador do seu nível, apontou a ferida principal: a falta de critério. A roleta-russa que transforma cada jogo em uma loteria.
“É complicado, a gente foi muito prejudicado”, começou o artilheiro, em entrevista à TV Globo. “Quando eu jogava na Europa, eu prometi, para mim mesmo, que quando eu jogasse no Brasil eu não falaria de arbitragem. É muito cansativo. Mas eu não quero falar da arbitragem dele, eu quero falar da falta de critério.”
Ele lembrou do jogo anterior, em São Paulo, onde o adversário abusou da cera e o jogo teve apenas 19 minutos de bola rolando no segundo tempo, sem punição. “Aí chega um outro árbitro e dá escanteio, começa a dar amarelo por cera, vai e expulsa o Neto, é complicado”, desabafou, referindo-se ao cartão vermelho direto aplicado ao nosso goleiro no fim da primeira etapa, um lance que mudou a história do jogo.
Mesmo com um a menos por 45 minutos, o Fogão lutou. Como sempre. “Fizemos uma partida excelente, eu realmente estou muito triste, eu acredito muito que não merecíamos sair derrotados hoje. Estivemos muito mais perto de fazermos o segundo gol do que tomar o empate”, complementou, ecoando o sentimento de toda a torcida alvinegra.
‘A Gente Vem Jogar Nesse PASTO Aqui’
Se a arbitragem foi o estopim, o estado do gramado da Fonte Nova foi o galão de gasolina. Arthur Cabral não poupou palavras e usou o adjetivo que estava na ponta da língua de todos: “pasto”. E foi aí que o desabafo ganhou contornos épicos, ao conectar a situação com as críticas recentes de Fernando Diniz, técnico do Corinthians, ao gramado sintético do nosso Nilton Santos.
“O senhor Fernando Diniz foi lá no nosso campo e falou ‘é impossível jogar nesse campo’. Aí a gente vem jogar nesse pasto aqui, aí é complicado. Como é que você cobra um gramado sintético, sendo que você dá estas condições de jogo para um adversário?”, questionou Cabral, com a retórica afiada.
A hipocrisia foi o ponto central. A cobrança por excelência no tapete dos outros, enquanto se oferece um campo deplorável em casa. “Temos que deixar de ser hipócritas e cobrar o que é certo, e não o que nos favorece. Eu vejo que a maioria das pessoas só cobram o que favorece a si mesmo”, disparou o atacante, mencionando que o campo do São Paulo no Morumbis também estava em condições ruins.
O golpe final foi direcionado ao clube mandante. “Jogar em um campo desses, em um clube gigante igual ao Bahia, que tem estádio próprio e não consegue dar um campo bom para uma Série A de Brasileiro, é uma vergonha ter um campo como esse.” Palavras duras, necessárias e verdadeiras.
Um Jogo Marcado pela Injustiça
Em campo, o Botafogo sentiu na pele o peso dessas adversidades. O time abriu o placar com uma verdadeira pintura de Huguinho, um gol que parecia iluminar o caminho. Mas a expulsão de Neto, no apagar das luzes do primeiro tempo, desequilibrou a balança.
Na segunda etapa, o Glorioso foi guerreiro, mas o azar, esse velho conhecido, apareceu. Ferraresi, em uma infelicidade, marcou contra. E nos acréscimos, quando o empate já era amargo, David Duarte selou a virada para o Bahia, que não vencia há quase dois meses. Uma derrota que dói, mas que, após as palavras de Arthur Cabral, ganha um novo significado: o de uma batalha contra um sistema inteiro.
O desabafo do nosso camisa 19 não devolve os pontos perdidos, mas devolve a dignidade e a voz ao povo do Fogão. Ele falou por nós. E mostrou que, mesmo na derrota, a Estrela Solitária jamais deixa de brilhar com orgulho e rebeldia.
Próximos Compromissos do Fogão
A luta continua, e o Glorioso precisa do nosso apoio para se reerguer. Confira a sequência de jogos pelo Brasileirão:
- Botafogo x Santos (C): 22/07, a definir
- Cruzeiro x Botafogo (F): 26/07, a definir
- Botafogo x Grêmio (C): 29/07, a definir