Um empate com sabor de derrota e um maestro solitário
Tem noites que o futebol nos lembra de sua crueldade e de sua poesia na mesma jogada. A noite deste empate contra o Vitória, pela 4ª rodada do Brasileirão de 2026, foi uma dessas. Vimos a Estrela Solitária brilhar intensamente nos pés de um jogador, mas o firmamento alvinegro não o acompanhou. Saímos de campo com um ponto que mais parece dois perdidos, e a sensação de que a genialidade de um homem só não basta para carregar o Glorioso nas costas.
Em campo, um Botafogo de duas faces. De um lado, a inspiração e a classe de Montoro, um verdadeiro camisa 10 e 8 ao mesmo tempo. Do outro, uma equipe que pecou pela desatenção, pela falta de pontaria e por decisões que, do banco à ponta direita, levantam questionamentos. É o tipo de jogo que deixa a torcida alvinegra com o coração na mão e a cabeça cheia de perguntas.
Montoro: a estrela que brilhou quase sozinha
Se houvesse justiça no futebol, cada toque na bola de Montoro teria se transformado em um tijolo na construção de uma vitória retumbante. O homem foi onipresente. Foi o farol que guiou um time por vezes perdido na escuridão. Ele saiu da defesa para armar, driblou, quebrou a marcação cerrada de Martínez e fez a engrenagem ofensiva girar. Praticamente todas as jogadas de perigo do Fogão nasceram de sua inteligência.
Ele foi o maestro que regeu a orquestra, mas alguns instrumentos pareciam desafinados. O ápice de sua atuação, e da frustração coletiva, veio no início do segundo tempo, quando um chute seu, com selo de gol, explodiu caprichosamente na trave. Foi o som do ‘quase’. O som que ecoou por todo o resto da partida. Montoro foi gigante, mas estava terrivelmente só em sua genialidade.
A muralha Arcanjo e a nossa falta de pontaria
Não se pode dizer que o Botafogo não tentou. Arthur Cabral, outro que se destacou na etapa inicial, buscou o jogo, se movimentou e soltou um belo chute de fora da área, mas parou em uma grande defesa de Lucas Arcanjo. O goleiro adversário, aliás, foi um dos responsáveis pelo nosso tropeço.
Contudo, não podemos colocar a culpa toda no arqueiro rival. Faltou capricho. Faltou tranquilidade. Medina, após receber um cruzamento de Vitinho, teve o espaço, a chance, mas isolou a bola, mandando-a para a lua. Em outro momento, um jogador nosso desperdiçou uma chance clara de cabeça após cruzamento do mesmo Vitinho. E o que dizer daquele contra-ataque em que a decisão errada na hora de finalizar ou passar para Montoro, que estava livre, custou caro? São esses detalhes que nos separam da glória.
Uma defesa entre a segurança e o vacilo
Nossa retaguarda viveu uma noite de contrastes. O estreante Danilo, quando exigido, mostrou reflexo em um chute à queima-roupa de Renê e passou segurança. Tivemos um zagueiro fazendo o simples, atento nos cortes, e outro, improvisado na ausência do suspenso Ferraresi, fazendo um corte providencial para impedir um chute de Erick dentro da área. Momentos de solidez.
Mas o Botafogo é isso aí, emoção até o fim. Telles, que até cresceu de produção na segunda etapa e apoiou o ataque, quase colocou tudo a perder no início. Uma falha de comunicação grotesca com Warleson por pouco não nos custou um gol. Seus passes errados e a desatenção que deixou Renê cara a cara com o goleiro são vacilos que não podemos cometer. É preciso mais concentração.
As pontas problemáticas e as substituições que não funcionaram
Mais uma vez, as pontas do time foram um problema. A insistência com Matheus Martins como titular simplesmente não se justifica em campo. Sua velocidade é uma arma que ele parece não saber usar, resultando em quase nada de efetivo. Um contra-ataque mal finalizado e um chute que passou perto não são suficientes para um titular do Glorioso.
Para piorar, quando o time dominava amplamente no começo da segunda etapa, as substituições parecem ter esfriado o nosso ímpeto. Um dos jogadores que entrou esteve visivelmente abaixo do ritmo, participando pouco. E um detalhe burocrático que dói na alma: ao completar 13 jogos, ele não poderá mais defender outra equipe neste Brasileirão de 2026. A aposta foi feita, e agora temos que conviver com ela. O time que voltou do vestiário com sangue nos olhos foi se apagando, e com ele, a nossa esperança de vitória.
O caminho é longo, a fé é inabalável
Saímos com um gosto amargo. A atuação de Montoro nos mostra o potencial que temos, a luz que pode nos guiar. Mas o futebol é um esporte coletivo. De nada adianta um gênio se ao seu redor a sintonia não for a mesma. Precisamos de mais jogadores chamando a responsabilidade, de mais capricho nas finalizações e de mais inteligência nas decisões. O caminho é longo, mas o povo do Fogão não desiste. A Estrela há de brilhar para todos.
Informações com base em reportagem do ge.globo.com.