O Dia em que a Estrela Solitária Ofuscou Paris
Há datas que se inscrevem na alma do torcedor com tinta indelével. Para nós, botafoguenses, o dia 19 de junho é uma delas. Há exatamente um ano, em 2025, o mundo parou para assistir o impossível vestir preto e branco. No gramado sagrado do Rose Bowl, em Pasadena, o Botafogo não era apenas um time; era a encarnação de uma mística, a prova viva de que no futebol, a camisa, a história e a paixão pesam mais que qualquer euro. A vitória por 1 a 0 sobre o todo-poderoso Paris Saint-Germain, pela Copa do Mundo de Clubes, não foi apenas um resultado. Foi um manifesto.
Esqueçam os milhões, as realidades distintas, o favoritismo descarado dos europeus. Naquela noite, o que entrou em campo foi o Glorioso de Didi, Garrincha, Nilton Santos. O gigante campeão continental que olhou nos olhos do campeão europeu e disse: aqui é Botafogo! Foi a vitória da tradição contra o dinheiro, do coração contra a lógica fria dos números.
A Obra de Arte: O Gol que Parou o Planeta
Feche os olhos, torcedor alvinegro. Você consegue ver? Aos 35 minutos do primeiro tempo, a pressão do nosso Fogão era um sufoco para os franceses. E então, a jogada que entraria para o panteão dos nossos momentos mais sagrados. Arthur, com a raça que só o botafoguense conhece, ganha uma dividida no meio-campo contra Kvaratskhelia e Vitinha. A bola sobra, limpa, para Gregore, que com a calma dos predestinados, aciona Marlon Freitas. A velocidade do pensamento de Marlon é crucial; ele encontra Savarino. O venezuelano, com um toque de gênio, lança um passe vertical que rasga a defesa parisiense. E lá estava ele, Igor Jesus, nosso centroavante, cara a cara com o zagueiro Pacho. Uma finta, um corpo de um lado, a bola do outro. O chute sai, desvia caprichosamente, e morre no canto direito de um Donnarumma que só pôde olhar. Gol. GOL! O grito entalado na garganta do povo do Fogão ecoou de Pasadena a General Severiano.
A Estratégia de um General: A Aula de Renato Paiva
Aquela equipe, montada pelo técnico Renato Paiva, foi uma sinfonia tática. O Botafogo foi ao Rose Bowl para ser letal. Soube sofrer, como é da nossa natureza, mas sofreu com organização. Deu uma aula de postura, fechando os espaços, negando a genialidade do adversário. E quando a bola estava nos nossos pés, especialmente na reta final, a equipe teve a maturidade para segurá-la, para fazer o tempo passar, para administrar a vantagem mais preciosa de nossa história recente. O “abafa” final do PSG foi inútil. Naquela noite, o espírito do clube gigante que somos prevaleceu.
A Voz da História: As Palavras de Quem Viveu o Sonho
Um dos heróis daquela jornada, o lateral-direito Vitinho, resumiu o sentimento em entrevista ao Lance!. Suas palavras são um testamento para a eternidade. “Naquele momento foi difícil imaginar a proporção que esse resultado teria. Queríamos vencer assim como qualquer outro jogo. Hoje, acredito que fizemos história e sou muito honrado por ter feito parte de tudo isso”, relembrou o jogador.
Vitinho ainda nos deu um vislumbre da festa que todo botafoguense sonhou em participar. “Ficamos muito felizes logo no apito final. A festa da torcida também foi muito marcante. Quem foi, viveu a história, como nós. Mas dentro do vestiário a festa ficou completa, com pessoas da comissão e todo o elenco reunido. Nosso grupo sempre foi especial”.
Os 11 Imortais e um Elenco em Transformação
Aquele time já era um retrato da nossa resiliência. Uma equipe em reconstrução após as saídas de Luiz Henrique e Thiago Almada, que brilharam no ano mágico de 2024. Muitos dos heróis daquela noite, como Jair, Gregore e o próprio autor do gol, Igor Jesus, já tinham transferências encaminhadas. Mas eles deixaram um último, e mais glorioso, serviço prestado. Dos 15 que entraram em campo, nove já não estão mais conosco, mas seus nomes estão gravados em nossa história.
A escalação que todo botafoguense deve saber de cor:
- Goleiro: John (hoje no Nottingham Forest)
- Defesa: Vitinho, Jair (Nottingham Forest), Alexander Barboza (Palmeiras) e Alex Telles
- Meio-campo: Gregore (Al-Rayyan), Marlon Freitas (Palmeiras) e Allan
- Ataque: Savarino (Fluminense), Artur (São Paulo) e Igor Jesus (Nottingham Forest)
Permanecem no clube, além de Vitinho, Alex Telles e Allan, os guerreiros Montoro, Santi Rodríguez e Newton, que saíram do banco para ajudar a segurar a vitória. Cuiabano, que também entrou, hoje está no Vasco.
Um Legado Inesquecível
Aquela vitória foi muito mais que um jogo. Foi o fim de um jejum que assombrava o futebol brasileiro. Desde a vitória do Corinthians sobre o Chelsea em 2012, nenhum time do nosso país vencia um gigante europeu em uma competição oficial. O Botafogo, com a autoridade de sua história, quebrou o tabu. E não parou por aí: a classificação veio em um grupo que ainda contava com o temido Atlético de Madrid.
Como revelou o Diretor de Coordenação de Futebol da SAF, Léo Coelho, a delegação já previa um resultado que mostrasse os valores do Botafogo. Eles sabiam. Nós, no fundo, também sabíamos. Porque há coisas que só acontecem com o Botafogo. E essa, meus amigos, foi a melhor de todas. Um dia para a eternidade.
Informações com base em reportagem do www.lance.com.br.