A terça-feira amanheceu mais cinzenta para a nação alvinegra. Um documento, frio e implacável como um gol sofrido no último minuto, rasgou a alma do torcedor. O juiz Marcelo Mondego de Carvalho Lima, da 2ª Vara empresarial do Rio de Janeiro, tornou pública a lista de credores da nossa SAF. E os números, meus amigos, são de gelar a espinha: um passivo declarado de R$ 1,286 bilhão no processo de Recuperação Judicial.
É um número que ecoa como um trovão sobre General Severiano. Uma cifra que, sozinha, não conta toda a história, pois a dívida total do nosso Glorioso ultrapassa a assombrosa marca de R$ 2,5 bilhões. O documento divulgado pela Justiça não é apenas um relatório contábil; é um raio-x doloroso de gestões passadas e de um presente que nos acorrenta.
A partir de agora, os credores, cujos nomes e valores foram expostos para todo o mundo ver, terão 15 dias para se manifestar, para contestar. Para nós, o povo do Fogão, resta a angústia de ver o tamanho do abismo financeiro que herdamos.
De Almada à GDA: Os Gigantes na Fila do Pagamento
Quando se mergulha na lista, a realidade se torna ainda mais dura. Dos R$ 1,286 bilhão, a fatia mais pesada, R$ 1,16 bilhão, refere-se a dívidas com outros clubes pela aquisição de direitos econômicos de atletas. É o preço do sonho, pago com um cheque sem fundo.
No topo desta lista ingrata, um nome se destaca: a Major League Soccer, através do Atlanta United. O Botafogo deve nada menos que R$ 196 milhões pela contratação de Thiago Almada, realizada em 2024. Uma contratação de peso que se transforma em um peso morto, um dos cravos no caixão que nos rendeu as punições da Fifa.
Logo em seguida, em uma reviravolta digna de um roteiro dramático, aparece a GDA Luma. Sim, a mesma empresa americana que assinou na última semana o acordo para comprar 90% da nossa SAF é também uma das maiores credoras. O documento judicial revela que o Botafogo deve R$ 186 milhões ao grupo, fruto de um empréstimo realizado durante a gestão de John Textor. Nossos futuros salvadores são, antes de tudo, cobradores. Uma complexidade que só o Botafogo é capaz de proporcionar.
Heróis, Ex-Técnicos e Atletas do Elenco: A Dívida Tem Rosto
Se os números são frios, os nomes na lista trazem o calor da decepção e da melancolia. A dívida não é apenas com empresas e clubes distantes; ela tem rosto, nome e sobrenome de pessoas que vestiram e honraram, ou não, o nosso manto sagrado.
O técnico Martin Anselmi, que teve uma passagem relâmpago de apenas três meses pelo clube antes de ser demitido em março, tem R$ 12,5 milhões a receber. Uma fortuna por um trabalho que mal começou, um atestado da falta de planejamento que nos assola há tempos.
Mais doloroso ainda é ver o nome de Igor Jesus na lista. Descrito como um dos heróis da conquista da Libertadores, o jogador tem aproximadamente R$ 11,7 milhões a receber do clube que ajudou a glorificar. É uma facada no coração da torcida ver um ídolo obrigado a entrar na fila para receber o que é seu por direito.
A sangria não para. Até mesmo jogadores do elenco atual figuram na lista de credores. Arthur Cabral, por exemplo, tem cerca de R$ 1,6 milhão a receber do seu próprio empregador. Como exigir entrega máxima de um atleta que, ao final do mês, se vê na mesma posição de um fornecedor esperando pagamento? É uma situação insustentável.
A Sombra da FIFA: Seis Punições e o Futuro Congelado
Toda essa montanha de dívidas não é apenas um problema contábil. Ela tem consequências diretas e devastadoras dentro de campo. O Botafogo sofreu, recentemente, seis ‘transfer bans’ da Fifa. Seis! Estamos oficialmente impedidos de contratar, de sonhar com reforços, de fortalecer o elenco para as batalhas que virão.
Estamos paralisados, com as mãos atadas pela incompetência do passado. Cada nome na lista de credores, cada milhão devido, é um tijolo no muro que nos impede de avançar. A Estrela Solitária, que deveria guiar nosso caminho, hoje se vê ofuscada por uma nuvem de débitos e proibições.
Essa lista, revelada pela Justiça, é mais do que um balanço financeiro. É a materialização dos nossos piores pesadelos. Mas, para o botafoguense, a esperança é teimosa. A chegada da GDA Luma, mesmo que também credora, representa uma chance de virar essa página sombria. O caminho será longo, árduo e doloroso, mas é o único que temos. Que a nova gestão tenha a sabedoria e a coragem para nos tirar deste buraco e fazer a nossa estrela brilhar novamente, livre e soberana. A torcida alvinegra estará aqui, fiscalizando, apoiando e, como sempre, sofrendo e amando este clube como nenhum outro.
Informações com base em reportagem do ge.globo.com.